Quanto rende a poupança?
Por Sergio Monteiro Jr., Planejador Financeiro Pessoal e Familiar, CFP® (Planejar) · CEA (Anbima) · Especialista em Seguros de Vida e Previdência (Susep)
Publicado originalmente em · Atualizado em
Você provavelmente já ouviu dizer que a poupança “rende pouco” ou que “perde para a inflação”. Como quase tudo em finanças, a resposta depende do momento — então vale olhar os números atuais em vez da fama. Vamos comparar a poupança com a Selic, o CDI e a inflação.
O que é a poupança?
A poupança é o investimento mais conhecido do brasileiro. Em tempos de hiperinflação, era ela que pagava os juros “overnight”, e o costume ficou: muita gente ainda mantém aqui a sua reserva. O mercado de investimentos mudou bastante desde então, e hoje existem aplicações de risco parecido que costumam render mais — é o que os números abaixo mostram.
Um detalhe importante de como ela funciona: os juros da poupança só são pagos na data de “aniversário” (a cada mês completo da aplicação). Se você aplica no dia 1º de janeiro, os juros só entram no dia 1º de fevereiro; se resgatar tudo antes do aniversário, não recebe os juros daquele período (no resgate parcial, conta o menor saldo que ficou no mês).
Quanto a poupança rende em 2026?
A regra de remuneração é a seguinte:
- Quando a Selic está acima de 8,5% ao ano, a poupança rende 0,5% ao mês + a Taxa Referencial (TR).
- Quando a Selic está igual ou abaixo de 8,5%, ela rende 70% da Selic + TR.
Em agosto de 2026, a Selic está em 14,00% ao ano — bem acima de 8,5%. Logo, a poupança rende 0,5% ao mês + TR, isenta de Imposto de Renda. Um detalhe que costuma passar batido: quando a Selic está alta, a própria TR sobe e soma um pouco mais ao rendimento. Nos 12 meses até junho de 2026, a poupança acumulou cerca de 8,32% (Calculadora do Cidadão, Banco Central).
Como isso se compara ao CDI e ao Tesouro Selic?
Nos mesmos 12 meses, o Tesouro Selic — que acompanha a taxa básica de juros, com risco parecido com o da poupança — rendeu cerca de 14,75% (o CDI fica praticamente igual). Contra os 8,32% da poupança, é quase o dobro, antes dos impostos.
Mesmo descontando o Imposto de Renda (17,5% para aplicações de até dois anos), o Tesouro Selic líquido fica em torno de 12,2% — ainda cerca de 45% acima da poupança, que é isenta. Como o risco é parecido, a comparação é justa.
”Mas a poupança não tem Imposto de Renda”
É verdade — e é o argumento mais comum a favor dela. Só que a isenção precisa ser olhada junto com como cada uma rende:
- A poupança não tem IR, mas só paga juros no “aniversário”. O rendimento entra uma vez por mês, na data correspondente à do depósito (cerca de 30 dias depois; depósitos feitos nos dias 29, 30 ou 31 têm aniversário no dia 1º). Se você resgatar antes do aniversário, perde todo o rendimento do período — recebe de volta exatamente o que aplicou.
- O Tesouro Selic rende todos os dias, mas paga IR. A alíquota é regressiva e incide só sobre o rendimento: 22,5% até 180 dias, 20% de 181 a 360, 17,5% de 361 a 720 e 15% acima de 720 dias.
Juntando os dois efeitos, o resultado líquido do Tesouro Selic tende a ficar à frente da poupança nos dois extremos de prazo:
- Resgate rápido (antes de 30 dias): na poupança, o rendimento é zero. No Tesouro Selic, você já tem alguns dias de juros e, mesmo descontando o IR de 22,5% (e o IOF, que incide apenas nos primeiros 30 dias), sobra um valor pequeno, mas positivo — e qualquer coisa positiva já supera o zero da poupança.
- Prazo longo (mais de 720 dias): o IR cai para a menor faixa, 15%. Com a Selic alta, o Tesouro Selic líquido fica bem acima dos 0,5% ao mês + TR da poupança.
Conclusão: o Imposto de Renda realmente reduz o ganho do Tesouro Selic, mas não o suficiente para a poupança passar à frente. Do resgate em poucos dias à aplicação de vários anos, a rentabilidade líquida do Tesouro Selic tende a superar a da poupança.
E a inflação?
No mesmo período, a inflação medida pelo IPCA ficou em torno de 5,00%. Ou seja: hoje, com a Selic alta, a poupança tem um ganho real positivo (≈8,32% contra ≈5,00%) — diferente de períodos de juros baixos, quando ela já chegou a perder poder de compra.
O ponto, portanto, não é que a poupança “perca para a inflação” sempre. É que ela tende a render bem menos do que aplicações de mesmo risco — e, por causa dos juros compostos, essa diferença se acumula ano após ano.
Uma simulação simples
Imagine R$ 1.000 aplicados por 12 meses, até junho de 2026:
- Na poupança (≈8,32%): cerca de R$ 1.083,20, sem IR.
- No Tesouro Selic (≈14,75% bruto): cerca de R$ 1.147,50, ou aproximadamente R$ 1.121,70 já com o IR de 17,5%.
- Para apenas manter o poder de compra (IPCA ≈5,00%): seriam necessários R$ 1.050,00.
Os três terminam acima da inflação no período — mas a distância entre a poupança e o Tesouro Selic é grande.
”É o fim da renda fixa?”
Essa manchete costuma aparecer para tirar dinheiro da poupança e levá-lo para outros produtos — de renda fixa mais agressiva à renda variável. E há muito em jogo: o saldo da poupança no Brasil ainda supera R$ 1 trilhão (dados do Banco Central).
Vale lembrar para que a renda fixa de baixo risco serve bem: reserva de emergência e dinheiro de curto prazo, que precisa de liquidez imediata. É justamente nesse papel que faz sentido comparar a poupança com o Tesouro Selic e o CDI, já que têm risco parecido.
Por que tanta gente continua na poupança?
Como estudioso da psicologia financeira, reúno três motivos ligados ao comportamento humano para explicar por que tantos brasileiros mantêm dinheiro na poupança.
1. Status quo — praticidade e comodidade. O hábito da poupança vem de décadas de inflação e do costume de manter o dinheiro em algo de liquidez imediata. O mercado mudou, mas muita gente segue investindo como nos anos 90. Vale lembrar que não mudar também é uma decisão — e nem sempre a mais eficiente.
2. Medo de perder dinheiro. A aversão à perda é um viés muito ligado ao status quo: o ser humano sente mais a dor de perder do que o prazer de ganhar. Por isso muita gente prefere o que parece “seguro” a arriscar, ficando na inércia — e aí voltamos ao status quo, num ciclo que se retroalimenta.
3. Desconhecimento. O ganhador do Nobel Robert C. Merton resume bem: “as pessoas não gostam de aprender sobre finanças pessoais” e “não gostam de lidar com suas finanças pessoais”. Some-se a isso as peculiaridades do nosso país (político, econômico e jurídico) e não surpreende que o tema afaste ainda mais as pessoas.
Aprender o básico exige um esforço que o nosso cérebro tende a evitar — e é por isso que o assunto não anima a maioria, e que muita gente prefere delegar essas decisões a um profissional.
Em resumo
A poupança não é uma vilã: ela é simples, líquida e de baixo risco. O ponto é que, para o mesmo nível de risco, existem alternativas que costumam render mais — e entender isso ajuda você a decidir com clareza onde deixar a sua reserva. Este é um conteúdo educativo, não uma recomendação de investimento.
Fontes
- Banco Central — Calculadora do Cidadão — correção pela Selic, poupança e IPCA (valores deste artigo).
Conteúdo educativo. Não constitui recomendação de investimento nem consultoria financeira individualizada. As decisões são de responsabilidade de quem as toma.