Tabela periódica dos investimentos: retornos anuais por classe de ativo no Brasil
Por Sergio Monteiro Jr., Planejador Financeiro Pessoal e Familiar, CFP® (Planejar) · CEA (Anbima) · Especialista em Seguros de Vida e Previdência (Susep)
Publicado originalmente em · Atualizado em
A tabela periódica dos investimentos é uma forma simples de enxergar uma verdade que o mercado insiste em repetir: o melhor investimento muda o tempo todo.
Em vez de olhar apenas para o retorno acumulado de uma aplicação, a tabela organiza diferentes classes de ativos ano a ano, do melhor para o pior desempenho. Assim, fica fácil perceber que CDI, títulos públicos ligados ao IPCA, poupança, ações brasileiras, fundos imobiliários, dólar, ouro, ações americanas e cripto alternam posições conforme juros, inflação, câmbio, ciclo econômico e humor do mercado.
Eu publiquei a primeira versão desse material em 24 de março de 2021 no meu antigo blog, o Planejamento Financeiro, e atualizava a tabela anualmente, normalmente entre janeiro e fevereiro, quando os dados do ano anterior já estavam fechados. A versão antiga ficou registrada no artigo “Tabela Periódica do Retorno dos Investimentos”, atualizado até 2021. Agora a ideia volta em uma versão melhor: mais organizada, interativa e feita para ser consultada diretamente aqui no site.
Tabela periódica dos investimentos
Use os controles para alternar entre a visão ranqueada, no formato clássico da Callan, e a matriz com linhas fixas. A tabela foi travada em 10 classes principais, com duas linhas de referência possíveis: inflação, pelo IPCA, ou ganho/perda, pelo zero. Clique em uma classe para destacá-la em todos os anos. A coluna de 2026 é parcial até 31 de maio de 2026.
O que é a tabela periódica dos investimentos?
A inspiração vem da famosa Periodic Table of Investment Returns, criada pela Callan. A lógica é parecida com uma tabela periódica visual: cada coluna representa um ano e cada bloco representa uma classe de ativo ou índice. Em cada ano, os blocos são ordenados pelo retorno anual.
No planejamento financeiro, ela é útil porque tira a conversa do campo da previsão e leva para o campo da evidência. Quando alguém pergunta “qual é o melhor investimento?”, a tabela ajuda a mostrar que a pergunta está incompleta. Melhor para qual prazo? Com qual risco? Com qual liquidez? Para qual objetivo? Em qual cenário?
Um ativo pode liderar em um ano e ficar na lanterna no seguinte. Uma classe que parece sem graça em períodos de euforia pode ser justamente a que protege a carteira em anos ruins. É por isso que diversificação não é uma frase bonita para relatório: é uma forma prática de sobreviver a ciclos diferentes sem depender de adivinhação.
Por que eu trouxe essa tabela de volta?
No blog antigo, eu usava a tabela principalmente em conversas de educação financeira e planejamento. Ela ajudava clientes e leitores a visualizarem que perseguir o último vencedor costuma ser uma armadilha.
Quando o mercado sobe, é comum olhar para trás e pensar: “era óbvio que eu deveria ter colocado tudo nisso”. Só que a tabela mostra exatamente o contrário. O ranking muda, os ciclos mudam e a sensação de obviedade quase sempre aparece depois que o retorno já aconteceu.
Ao recuperar esse conteúdo para o Gestor Pessoal, eu quis manter a ideia original, mas melhorar a entrega:
- a nova versão fica navegável dentro do próprio artigo;
- o leitor pode destacar uma classe de ativo e acompanhar sua posição ao longo dos anos;
- a tabela usa uma lógica replicável por instrumentos disponíveis no Brasil;
- as limitações da base aparecem explicitamente, em vez de ficarem escondidas;
- a atualização passa a ser tratada como um ativo recorrente do site.
Minha intenção é atualizar essa tabela todos os anos, de preferência em janeiro ou fevereiro, como eu fazia antes, para que ela vire uma referência histórica permanente de comportamento dos investimentos no Brasil.
Como ler a tabela sem cair em conclusões erradas
A tabela periódica dos investimentos é poderosa, mas precisa ser lida com cuidado.
Primeiro, ela mostra retorno passado, não promessa de retorno futuro. Se uma classe ficou em primeiro lugar em 2024, isso não quer dizer que ficará em primeiro lugar em 2025 ou 2026. Na verdade, a própria tabela costuma mostrar o contrário: líderes mudam.
Segundo, retorno anual isolado não mede todo o risco. Um ativo que sobe 100% em um ano pode cair muito no ano seguinte. Outro pode render menos, mas com volatilidade bem menor. Para uma carteira real, risco, prazo, liquidez, tributação e objetivo importam tanto quanto retorno.
Terceiro, a tabela não substitui planejamento. Ela ajuda a conversar sobre diversificação, comportamento e ciclos, mas a decisão de carteira precisa considerar a vida da pessoa: reserva de emergência, horizonte de investimento, renda, família, tolerância a perdas e necessidade de liquidez.
Por fim, é importante lembrar que “replicável por ETF” não significa “recomendado para todo mundo”. O ETF é usado aqui como referência prática de classe de ativo, não como recomendação individual de compra.
O que representa cada linha da tabela?
A tabela mistura índices, classes de ativos e alguns ETFs conhecidos para tornar a leitura mais prática. A ideia não é dizer “compre este produto”, mas usar referências reconhecíveis para comparar comportamentos.
- CDI: referência central da renda fixa pós-fixada no Brasil. Ajuda a comparar aplicações conservadoras, fundos DI, CDBs, LCIs, LCAs e títulos atrelados à Selic ou ao CDI.
- IMA-B / IPCA+: índice da ANBIMA que acompanha uma carteira de títulos públicos federais indexados ao IPCA. Ele não é a inflação pura: sofre marcação a mercado e pode cair quando os juros reais sobem.
- Poupança: investimento tradicional do brasileiro, com regra própria de remuneração. Entra na tabela como referência popular, não como indicação de eficiência.
- Dólar/PTAX: variação do real contra o dólar comercial de referência. Ajuda a visualizar o impacto do câmbio em patrimônio, viagens, importados e ativos internacionais.
- Ibovespa: principal índice de ações brasileiras. Representa uma carteira teórica das ações mais negociadas da bolsa brasileira.
- IFIX: índice de fundos imobiliários listados na B3. Mostra o comportamento agregado dos FIIs, que podem oscilar tanto por renda quanto por preço de mercado.
- SMLL: índice de small caps brasileiras. Tende a ser mais sensível a ciclo econômico, juros e liquidez do mercado.
- S&P 500 em reais: referência para ações americanas, convertida para reais. O retorno combina a variação da bolsa dos EUA com a variação do câmbio.
- Ouro em reais: referência de ouro para o investidor brasileiro. Pode funcionar como proteção em alguns cenários, mas também passa por longos períodos de oscilação.
- Cripto/HASH11: referência para criptoativos em bolsa brasileira. Tem histórico mais curto e volatilidade muito maior do que as classes tradicionais.
O que mudou em relação à versão antiga?
A versão antiga do blog era mais simples. O objetivo era educativo: mostrar, de maneira visual, o retorno anual de diferentes investimentos e provocar a reflexão sobre diversificação.
Nesta nova versão, mantive a essência, mas melhorei a estrutura:
- mais experiência para o leitor: a tabela agora é um artefato interativo, não uma imagem estática;
- mais rastreabilidade editorial: o artigo explica de onde veio a ideia e como a leitura deve ser feita;
- mais organização por classes: a seleção separa classe de ativo, referência usada e retorno anual;
- melhor base para atualização anual: a tabela já nasce como um ativo recorrente do site;
- mais cuidado com limitações: 2026 aparece como parcial e os dados históricos devem ser lidos como referência, não recomendação.
Os satélites que estavam na versão de trabalho — como IDIV, IMA-B 5/5+, ações globais e emergentes — ficam fora da tabela principal. Eles podem aparecer depois em uma seção complementar, mas o núcleo da tabela fica mais limpo com as 10 classes acima e o IPCA como referência de inflação.
Na linha de IMA-B, os anos de 2023, 2024 e 2025 foram preenchidos com o histórico oficial da ANBIMA. A fonte operacional usada na primeira montagem da base tinha deixado esses períodos sem dado confiável; por isso, a linha foi atualizada apenas depois da conferência com a série do próprio índice.
Nas linhas de ouro, de cripto e de S&P 500, quatro células foram corrigidas em agosto de 2026, depois de uma auditoria de origem. A série de ouro do Banco Central usada até então (Ouro BM&F, SGS 4) foi descontinuada em 30 de setembro de 2019, e o GOLD11 só tem cotação a partir de 14 de dezembro de 2020 — ou seja, o fechamento de 2019 e o ano inteiro de 2020 tinham ficado sem fonte capaz de sustentá-los. Os dois anos foram recalculados pelo LBMA Gold Price PM convertido pelo PTAX de fechamento, que é a mesma referência que o GOLD11 acompanha. Em cripto, o HASH11 estreou na B3 em 26 de abril de 2021, então o número que ocupava a coluna de 2021 cobria oito meses e não o ano; como um período parcial não é comparável dentro de um ranking anual, a célula passou a ficar sem dado. Pelo mesmo motivo, o S&P 500 em reais perdeu a célula de 2014: o IVVB11 estreou em 29 de abril de 2014, e o número que estava ali cobria oito meses. A conta confirma — para os +33,31% serem o ano inteiro, o S&P 500 teria de ter subido cerca de 17,6% em dólar naquele ano, contra os cerca de 13,7% que ele de fato entregou com dividendos; medido a partir de 29 de abril, o número fecha.
Ainda há trabalho para as próximas versões. Uma melhoria natural é completar a auditoria com séries oficiais/licenciadas de maior histórico, especialmente IMA-B, IFIX e SMLL. Outra é revisar alternativas de menor taxa, como ETFs mais novos, quando houver histórico, liquidez e qualidade de tracking suficientes.
Para que essa tabela serve no planejamento financeiro?
Na prática, eu gosto dessa tabela por três motivos.
O primeiro é educacional. Ela mostra, em poucos segundos, que não existe um único investimento vencedor em todos os anos. Isso reduz a ansiedade de encontrar “a aplicação perfeita” e ajuda a aceitar que carteiras bem construídas combinam peças diferentes.
O segundo é comportamental. Quando uma classe sobe muito, ela aparece no topo e vira assunto. Quando cai, desaparece das conversas. A tabela ajuda a enxergar esse ciclo de empolgação e esquecimento.
O terceiro é estratégico. Ao olhar para vários anos, o investidor começa a entender que diversificação não serve para maximizar o retorno de cada ano isolado. Ela serve para montar uma carteira capaz de atravessar cenários diferentes sem depender de uma previsão perfeita.
Se você quiser testar o impacto de retorno e prazo nos seus próprios números, também pode usar a calculadora de juros compostos e a calculadora de independência financeira. A tabela ajuda a entender o comportamento das classes; as calculadoras ajudam a traduzir isso para metas pessoais.
Fontes e metodologia
A versão atual separa duas coisas: a série histórica usada para medir a classe e o ETF que ajuda o leitor a reconhecer uma forma prática de replicá-la. Quando o ETF tem histórico curto, a tabela prioriza o índice histórico da classe; quando a série completa ainda está em auditoria, a célula fica sem dado em vez de ser preenchida por aproximação sem fonte. A fórmula básica do retorno nominal é:
retorno anual = cota ajustada no último pregão do ano / cota ajustada no último pregão do ano anterior - 1
O juro real é calculado por (1 + retorno nominal) / (1 + IPCA) - 1. O IPCA da tabela vem da série 433 do SGS/Banco Central, acumulado por ano; em 2026, o acumulado também é parcial até maio.
Para 2026, a coluna é parcial até 31 de maio de 2026. CDI, dólar/PTAX, IPCA e parte da poupança foram recalculados a partir de séries do SGS/Banco Central. A linha de IMA-B usa o quadro histórico da ANBIMA nos fechamentos de 2023, 2024 e 2025, e o retorno parcial até 29 de maio de 2026. A base de trabalho também registra fontes e caminhos de auditoria, incluindo Callan como referência conceitual, OBM como fonte operacional de teste, ANBIMA, B3, Banco Central e IBGE como fontes de confirmação conforme a classe de ativo. A linha de ouro usa três trechos declarados: Ouro BM&F (série 4 do SGS/Banco Central) até o fechamento de 2018, LBMA Gold Price PM convertido pelo PTAX de fechamento em 2019 e 2020, e GOLD11 a partir de 2021. A linha de cripto usa HASH11 desde a estreia em 26 de abril de 2021, com a coluna de 2021 sem dado por ser um ano parcial. A linha de S&P 500 em reais usa IVVB11 desde a estreia em 29 de abril de 2014, com a coluna de 2014 sem dado pelo mesmo motivo.
Em uma próxima versão, a prioridade é fortalecer ainda mais a base com séries oficiais ou licenciadas de maior histórico para IFIX, SMLL e HASH11.
Conclusão
A principal lição da tabela periódica dos investimentos é simples: não dá para escolher carteira olhando só para o vencedor do ano passado.
O mercado muda de liderança, muda de narrativa e muda de humor. A carteira precisa ser construída para objetivos reais, não para ganhar uma corrida retrospectiva. Quando a tabela é lida desse jeito, ela deixa de ser uma curiosidade visual e vira uma ferramenta de planejamento.
Foi por isso que eu usava esse material no blog antigo. E é por isso que ele volta agora, em uma versão melhor, atualizável e mais transparente.
Referências
- Callan Periodic Table of Investment Returns
- ANBIMA IMA — histórico de resultados
- Versão antiga recuperada no Planejamento Financeiro
Conteúdo educativo. Não constitui recomendação de investimento nem consultoria financeira individualizada. As decisões são de responsabilidade de quem as toma.